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quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Comunicado de Jacques-Alain Miller, Pela liberação de Rafah NACHED

A Associação Mundial de Psicanálise convida a todos os seus membros e àqueles que receberem este Comunicado, a aderir à Petição pela imediata liberação da psicanalista Rafah NACHED.
 
Como é sabido, Rafah NACHED exerce a psicanálie na Síria, após haver-se diplomado em psicologia clínica em uma Universidade de Paris. Ela foi presa no sábado, 10 de setembro, no aeroporto de Damasco, no preciso momento de embarcar para Paris, onde sua filha está para dar a luz. Até o momento, os serviços de informação têm se negado a dar notícias sobre sua situação.

Os psicanalistas argentinos, que em particular, sabem da nefasta história do desaparecimento forçado de pessoas, não poderiam ficar em silêncio, diante de um fato desta magnitude.

As adesões à petição (que abaixo reproduzimos) devem ser dirigidas a: rafah.navarin@gmail.com <mailto:rafah.navarin@gmail.com>

Também reproduzimos a seguir, o Comunicado de Jacques-Alain Miller do dia de hoje às 15:37h de Paris.

Solicito aos Presidentes das Escolas da AMP que traduzam rapidamente para que os membros, nas cinco línguas, possam calibrar suas palavras sobre o alcance do que está em jogo neste contexto.
Buenos Aires, 13 de setembro de 2011 (12h 30)
Leonardo Gorostiza
Presidente de la AMP

Comunicado urgente de Jacques-Alain Miller
Paris , 13 de setembro de 2011, 15:37h.

O  poder sírio, encurralado,  tem se lançado em uma repressão sem piedade.

Alguns de nossos amigos que têm velhos contatos com o governo sírio estão atuando nos bastidores para obter a liberdade de RAFAH, que parece estar sob os pés dos serviços mais duros.
 Por outro lado, trata-se de fazer muito barulho  para intimidar, se for possível, os assassinos revestidos da autoridade do Estado sírio, ou do que fica deste.

Faço uma chamada às 7 irmãs, às 7 Escolas do Campo Freudiano no mundo e a seus membros um a um, para:
1) Assinar a chamada "Liberdade para RAFAH!, Mobilização por RAFAH!" , isto é o mínimo;
2) Contatar em cada país, com jornalistas, intelectuais, artistas, escritores, personalidades, com o fim de maximizar a função "BARULHO"
3) E, à continuação, se RAFAH continua estando em um lugar desconhecido: concentrações – pacíficas, certamente.
O que está em jogo é de suma importância.

a) As "revoluções" do início do ano convenceram a opinião mundial de que a democracia liberal é uma aspiração dos povos árabes, curvados há muito tempo ao jugo dos ditadores, com a cumplicidade dos "Ocidentados", aliados a esses compradores que traem sem vergonha, o interesse verdadeiro, tanto das classes populares, quanto o da burguesia nacional.

b) Desejo de consumir, liberdade de palavra e de associação, direito ao gozo, sim, em todos os lugares os povos querem, eles também, saborear os prazeres venenosos do Um contável, do Um-só, do qual zomba o Tio SAM. Pouco importa que um pássaro de mau presságio (Lacan Jacques, para não nomeá-lo, o bem conhecido kojevo-heideggeriano) possa pensar que  isso não será a panaceia e que o "Paraíso"  (Sollers), certamente não está ao final desses fantasmas. Os povos querem isso e a bússola do tempo lógico indica que devem passar hoje pelo momento liberal-consumidor da história do mundo, quer dizer, pela produção intensiva  "da falta de gozo"- para ir, um dia , mais além: até à santidade, propunha Lacan.

c) A psicanálise, a prática da associação livre, faz parte integrante deste momento, da mesma maneira que o Ipad, o i-phone, Facebook, Google, as Go Go Girls, Lady Gaga, The Huffington Post, The Daily Show with Jon Stewart, and the whole megillah.

 d) RAFAH na prisão, RAFAH raptada, RAFAH apagada, é a tentativa do minus, do Liliputiense, para amarrar o Gulliver do discurso universal. Uma figura do Espíritu que está terminando de envelhecer. Ajudemos à serpente da sabedoria a desembaraçar-se de sua velha pele!

A psicanálise no século XXI converteu-se em uma questão social.
Esta mobiliza por todos os lados, a atenção dos legisladores, sonhando em "Preencher os vazios jurídicos! Com efeito, este é seu Job, sua carga. Mas, a nossa não é essa. A nossa é a de fazer-nos os auxiliares do tempo lógico, ativando por todos os lados, o poder das lacunas, dando jogo aos semblantes, insinuando a liberdade de associação, a associação livre.

A psicanálise se converteu em uma questão social? Indefectivelmente, nos acossan os “sociômanos” (Sollers)? Muito bem! Ser atacado pelo inimigo é uma coisa  boa, não má, dizia um sábio chinês. É o momento, é o lógico, de que por todo lado, a psicanálise se converta agora em uma força material, uma força política

Isto é o que está verdadeiramente em jogo no assunto RAFAH. 

Mobilização a favor de  RAFAH !
¡Liberdade a  RAFAH !
Enviar um e-mail para:  rafah.navarin@gmail.com 
Fonte:CEPP- Círculo de Estudo Psicanalítico do Piauí

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

O CRIME DE LADY GAGA por Marcia Tiburi

FONTE: revistacult.uol.com.br
Site da Revista CULT
Lady Gaga é o mais recente ídolo pop da cena internacional. Entenda-se por ídolo pop um indivíduo que encanta as massas com a habilidade artística de que é capaz sendo seu autor ou o mero representante de uma estética inventada por publicitários e estrategistas de produtos culturais. Nesse sentido, todo ídolo pop age como o flautista de Hamelin conduzindo por certo efeito de hipnose uma quantidade sempre impressionante de pessoas. Ele é também um guia estético e moral das massas. A propósito, entenda-se por massa um grupo de indivíduos que, ao se encontrar com outros, perde justamente a individualidade, tornando-se sujeito de sua própria dessubjetivação. Em outras palavras, ele é hipnotizado como se estranhamente desejasse sê-lo. A Indústria Cultural depende desse mecanismo, por meio do qual oferece ao indivíduo a oportunidade de se perder com a sensação de que está ganhando. O ídolo pop é a humana mercadoria que permite o gozo pelo logro que o espectador logrado aplica a si mesmo.
Lady Gaga certamente veio para nos lograr. Mas, como disse Walter Benjamin sobre livros (e também putas), muitas vezes a mercadoria vale muito mais do que o dinheirinho que pagamos por ela.

O paradoxal desejo das massas

Antes de mais nada, é preciso ver que Lady Gaga, a despeito da qualidade boa ou má de si mesma e do que ela produz, vem a nós com números impressionantes. Se na internet seus vídeos são vistos por milhões de pessoas (certamente, quando você ler este artigo, os números serão ainda maiores) é porque ela mesma sabe – ou o diretor e roteirista de seus belos videoclipes nos quais a quantidade aparece, seja na nota de dólar com o rosto de Gaga como no vídeo de “Paparazzi”, seja em “Bad Romance” nos índices na cena dos computadores – que se trata em sua obra da questão da quantidade, mais do que da qualidade. A Indústria Cultural sempre tem na quantidade uma questão mais importante do que a qualidade, mas, se Lady Gaga sabe disso e não o esconde, é porque elevou o cinismo a discurso, mas, ao mesmo tempo, lança-nos uma ironia capaz de fazer pensar.
A questão da quantidade adquire um contorno subjetivo na mentalidade dos indivíduos aniquilados no todo. Assim, uma característica expositiva da condição das massas de nosso tempo é o próprio “desejo de ser massa”. Trata-se da ânsia de adesão ao todo que se disfarça no desejo de saber o que todo mundo sabe, ver o que todo mundo vê. Complicado falar de desejo das massas, quando a “massa” remonta à possibilidade de se deixar moldar pela ação exterior justamente por ausência de desejo. Podemos, no entanto, entendê-lo usando uma imagem gasta como a da ovelha a participar do rebanho. Um modo de ter lugar desaparecendo mimeticamente no todo. Nesse sentido, o desejo de ser massa é o mesmo que nos coloca na situação de fazer parte da audiência fazendo com que liguemos a televisão no programa mais visto, que queiramos ver o filme com a maior bilheteria, que, caso cheguemos a desejar um livro, seja da lista dos mais vendidos. Fazer parte da audiência é a garantia de que em algum momento estaremos juntos, que faremos parte de uma comunidade mesmo que ela seja apenas “espectro”. A angústia da solidão, da separação e da própria individuação desaparece por um passe de mágica da imagem do ídolo pop.

Uma estética pop para o pós-feminismo?

A obra da jovem Lady Gaga não é objeto descartável como a maioria das mercadorias promovidas no contexto da indústria e do mercado cultural. Se nos detivermos em sua música, em sua dança ou em sua imagem isoladamente, não entenderemos o todo da mercadoria. Portanto, é preciso estar atento à performance que ela realiza. A apreciação disto que devemos hoje chamar de obra-produto ou produto-obra deve começar por aí, tendo em vista que, acima de tudo, Lady Gaga é uma performer que agrega em seus vídeos diversas formas artísticas que vão da música ao cinema, passando pela dança e chegando a uma relação curiosa com um aspecto inusitado da produção contemporânea nas artes visuais. Lady Gaga tange em seus vídeos mais famosos questões que estão presentes na obra de artistas contemporâneas que podemos chamar de vanguardistas por falta de expressão melhor, tais como Cindy Sherman, Daniela Edburg e Chantal Michel. No Brasil, Karine Alexandrino, Paola Rettore ou o pernambucano Bruno Vilella praticam a mesma suave ironia até o mais cáustico deboche com trabalhos sobre mulheres mortas.
O tema da mulher morta torna-se quase um lugar-comum na arte contemporânea, como foi no século 19. Naquele tempo, ele representava o impulso próprio do romantismo que via na mulher falecida e inválida um ideal agora retomado de modo irônico por diversas artistas contemporâneas. Lady Gaga vai, no entanto, muito além dessas artistas em termos de coragem feminista. Enquanto elas zombam das mulheres estereotipadas que morrem como Ofélias por um homem, Lady Gaga, de modo mais surpreendente e corajoso do que importantes artistas cultas, dá um passo adiante.
No vídeo de “Paparazzi” fica exposto o amor-ódio que um homem nutre por uma mulher, a invalidez à qual ela é temporariamente condenada por sua violência e, por fim, uma vingança inesperada com o assassinato desse mesmo homem. “Incitação à violência”, pensarão as mentes mais simples; “feminismo como ódio aos homens”, dirá a irreflexão sexista acomodada, quando na verdade se trata de uma irônica inversão no cerne mesmo do jogo simbólico que separa mulheres e homens. Se em “Paparazzi” o deboche beira o perverso autorizado psicanaliticamente (a mulher sai da posição deprimida ou melancólica e aprende a gozar com seu algoz, que ela transforma em vítima), em “Bad Romance”, “o vídeo mais visto de todos os tempos”, mulheres de branco – como noivas dançantes – surgem de dentro de esquifes futuristas para curar uma louca que chora querendo ter um “mau romance” com um homem. Um contraponto é criado no vídeo entre a imagem do rosto da própria Gaga levissimamente maquiado, demarcando o caráter angelical de sua personagem, em contraposição ao caráter doentio da personagem da mesma Gaga de cabelos arrepiados e olhos esbugalhados. Entre eles a bailarina sensual junto de suas companheiras faz o elogio do corpo que é obrigado a se erotizar diante de um grupo de homens.
A noiva é queimada. Sobre a cama, no fim, a noiva como um robô um pouco avariado, mas ainda viva, contempla o noivo cadáver. A ironia é o elogio do amor-paixão, do amor-doença e morte ao qual foi reduzido o amor romântico pela estética pop da ninfa pós-feminista. O feminismo só tem a agradecer.
Em “Telephone”, a estética eleita é a da lésbica e da pin-up. Ambas criminosas. A primeira por ser uma forma de vida feminina que dispensa os homens, a segunda por ameaçá-los com uma estética da captura (a mulher-imagem-de-papel, a mulher “cromo”, a mulher-desenho-animado que configura o conceito do “broto”, do “pitéu”). No mesmo vídeo o personagem de Gaga compartilha com Beyoncé uma cumplicidade incomum entre mulheres.
Esse sinal é dado no meio do vídeo, quando Beyoncé vai resgatar Gaga na prisão e ambas mordem um pedaço de pão, que logo é lançado fora como algo desprezível. A comida mostra-se aí como o objeto do crime. O vídeo é mais que um elogio ao assassinato do mau romance, ou da vingança contra o evidente amor bandido de quem a personagem de Beyoncé quer se vingar. Trata-se de uma profanação da comida pelo veneno que nela é depositado. O amor bandido é morto pela comida, uma arma simbólica muito poderosa associada à imagem da mulher-mãe, da mulher-doação, dedicada a alimentar seu homem na antipolítica ordem doméstica.
O palco é a lanchonete de beira de estrada como em Assassinos por Natureza, de Oliver Stone. O assassinato é o objetivo do serviço das duas moças perversas que, no fim do vídeo, dançam vestidas com as cores da bandeira norte-americana – meio Mulher Maravilha – diante dos cadáveres de suas vítimas, já que, além do amor bandido, todos morreram. Cinismo? Sem dúvida, mas como paradoxal autodenúncia.
Mas o maior crime de Gaga, aquilo que fará com que tantos a odeiem, não será, no entanto, o feminismo sem-vergonha que ela pratica como uma brincadeira em que o crime é justamente o que compensa? E, como ídolo pop, não poderá soar aos mais conservadores como um modo de rebelar as massas de mulheres subjugadas pela perversa autorização ao gozo, doa a quem doer?

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Flavia Bonfim: ARTIGO: "O ardor e a dor de amor nas canções de Wi...


"Opção Lacaniana online nova série Ano 1 • Número 2 • Junho 2010 • ISSN 2177-2673 O ardor e a dor de amor nas canções de Winehouse. 1 Elian..."

O ardor e a dor de amor nas canções de Winehouse. 1

Eliane Lima Guerra Nunes

“Poetas e romancistas são nossos aliados e seu testemunho deve ser altamente estimado, pois eles conhecem muitas coisas entre céu e terra com que nossa sabedoria escolar não poderia ainda sonhar [...]”2.

A linguagem artística, em suas diversas expressões – música, poesia, cinema, pintura, etc. - transforma emoções em sentidos para seu público, criando, assim, um laço social entre este e o artista. Para Freud, o artista tenta, através de sua obra, dar sentido ao real sem sentido buscando transmitir àqueles que a apreciam uma sensação semelhante àquela sentida por ele no momento da criação. Vemos que o artista o faz intuitivamente, buscando muitas vezes esse efeito, como nos relata o poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade:
Eu preparo uma canção
em que minha mãe se reconheça
todas as mães se reconheçam
e que fale como dois olhos.
Eu preparo uma canção
Que faça acordar os Homens
e adormecer as crianças.3

Algumas obras são leituras aguçadas da época em que vivemos. A abordagem da delinquência e a toxicomania, na década de 90, pelo viés da heroína, foram exploradas por Boyle em seu filme Trainspotting4. Uma obra pode refletir o mal-estar na cultura e seus modos de gozo, dentre eles um modo peculiar de gozo na atualidade – o cínico, presente na toxicomania. Segundo Lacan, algumas obras expressam com mais clareza a vertente real do sintoma do artista, por ele grafada sinthoma, como a de Joyce, escritor inglês e minimalista, que se utiliza de l’elanguas5. Em outros, o sinthoma se exibe encarnado no corpo do artista, como vemos na body art e mesmo no suicídio durante a performance, como acentua Silva6. Mas nem sempre a tentativa de tratar o real por meio
do simbólico consegue se traduzir num saber-fazer singular, como o de Fernando Pessoa7:
O poeta é um fingidor,
finge tão completamente
que chega a fingir que é dor
a dor que deveras sente.

Referindo-se à toxicomania, Freud diz que a intoxicação pelo uso de droga surge como uma maneira eficaz de lidar com o mal-estar, proveniente das vicissitudes da vida que causam sofrimento advindo de:
[...] nosso próprio corpo, condenado à decadência e à dissolução [...]; do mundo externo, que pode voltar-se contra nós com forças de destruição esmagadoras e impiedosas; e, finalmente, de nossos relacionamentos com os outros homens8.
A resposta dos sujeitos a esse imperativo é o que se chama de novas formas de mal-estar, que apresentam um caráter compulsivo, excessivo, próprio da busca de uma satisfação pulsional incontornável que muitas vezes pode arrastar o sujeito à própria destruição. Segundo Coelho dos Santos9, esses sintomas exibem a face do objeto pulsional da constituição subjetiva que, nos sintomas modernos ou freudianos, estariam recalcados. Sob a égide do capitalismo instaura-se um novo imperativo na cultura, pois não se trata mais de proibir. O novo mandamento superegoico é que o sujeito pode e deve gozar de tudo.
A toxicomania, como uma patologia social, é um sintoma do homem moderno que, imerso no discurso capitalista e de consumo, busca sua forma particular de obter satisfação com aquilo que tem – seu corpo, como evidencia Lacan: “ter um corpo é poder fazer alguma coisa com [...]”10. Poderíamos supor ainda que, em alguns casos, como postula Miller11, os sujeitos ditos “adictos”, artistas ou não, podem ficar atados ao seu parceiro-sintoma. O artista, como um personagem deslocado de si mesmo, pode se utilizar da linguagem para exibir seu modo singular de gozo.
Na atualidade, a compositora e cantora de jazz inglesa Amy Jade Winehouse, de 26 anos, apresenta um cancioneiro sui generis sobre o tema que nos interessa. Foi várias
vezes premiada em 2008: cantora revelação, além de mais quatro prêmios no Grammy Award12. Suas canções, seu estilo e sua voz marcam uma época na cultura global, além de exibir o discurso social sobre o abuso de drogas na atualidade. Foi-lhe negado o visto de entrada nos Estados Unidos da América para receber os prêmios acima referidos. Fez, porém, sua performance artística, ao vivo - via satélite de Londres, quando cantou a música Rehab13, de seu segundo álbum Black to Black. Essa canção sintetiza, como outras, sua visão da toxicomania e sua recusa de aceitar um tratamento convencional, de base cognitivista (terapia comportamental):
They tried to make me go to rehab
But I said 'no, no, no'
Yes, I've been black, but when I come back
You'll know-know-know
I ain't got the time
And if my daddy thinks I'm fine
He's tried to make me go to rehab
But I won't go-go-go…

Seu nome wine+house, por si só, marca seu estilo e nos faz supor uma alusão a uma vertente de seu sintoma – a toxicomania. Além de belíssimas composições e interpretações intimistas, a cantora pop põe em cena o próprio corpo, em suas diversas passagens ao ato toxicomaníacas. Seu corpo, cruelmente emagrecido e devastado pelo abuso de crack e cigarros, é exibido e capturado por imagens que, inexoravelmente, são
superfaturadas pela mídia14 que explora ao máximo seus reais Rehabs.Contudo, como compositora, Winehouse revela uma visão peculiar do feminino que encontramos na clínica contemporânea com mulheres, especialmente aquelas afetadas pela toxicomania.
A compositora traz para a cena musical temas como o lugar da mulher como objeto para o homem. Em suas canções alude à posição feminina, na qual a mulher se apresenta com aquilo que falta ao parceiro amoroso, respondendo assim aos imperativos de seu desejo, como salienta Lacan. Ressaltando ainda o que ele diz sobre o que um homem pode ser para a mulher: "não há limites às concessões que cada uma faz por um homem: do seu corpo, da sua alma, dos seus bens"15. O amor erotomaníaco da mulher e sua necessidade do homem amado, para situá-la em seu gozo ilimitado, a “depressão” advinda da dor pela perda dessa parceria amorosa com seu parceiro-devastação, o refúgio de seu mal-estar no álcool e outras drogas são temas cantados e também vividos em sua vida.
A canção What is about men alude ao seu “destino freudiano”, quando expõe o lugar da repetição em sua vida. Ela atribui sua escolha do “homem errado” à sua fixação no ódio de sua mãe, abandonada pelo marido quando ela era adolescente, e equipara esse ato a uma “coisa natural” para ela, assim como cantar:
Understand once he was a family man
so surely I would never, ever go through it
first hand
Emulate all the shit my mother hated
I can't help but demonstrate my Freudian fate
My alibi for taking your guy
history repeats itself, it fails to die
and animal aggression is my downfall
I don't care 'bout what you got I wanted all
It's bricked up in my head, it's shoved under
my bed and I question myself again: what is it
'bout men?
My destructive side has grown a mile wide…
and I question myself again: what is it 'bout
men?
I'm nurturing, I just wanna do my thing
and I'll take the wrong man as naturally as I
sing […].

Várias canções retratam a vivência da dor pela perda do parceiro amoroso como, por exemplo, “Back to Black”, uma réplica de sua relação cotidiana com o ex-marido, Blake Field:
He left no time to regret
Kept his dick wet
With his same old safe bet
Me and my head high
And my tears dry
Get on without my guy
You went back to what you knew
So far removed from all that we went through
And I tread a troubled track
My odds are stacked…
I'll go back to black
We only said good bye with words
I died a hundred times
You go back to her
And I go back to [...]

Nessa canção ela revela a devastação sentida quando o ser amado a deixa e os signos do amor ou do desejo se distanciam16. Podemos observar, tanto na música como no videoclipe, esse estado de “luto”, no qual ela se deixa voluntariamente ser aspirada pela pulsão de morte. Winehouse exibe a sua dor manifesta no próprio corpo e também, como autora, na reinvenção do ato compulsivo e repetitivo de sua relação com a droga que escolheu.
Ela delineia, em suas canções, aquilo que Lacan alude sobre como a droga promove o rompimento com o faz-pipi17 e, como uma latusa, ofertada como objeto de consumo e ilusão de completude, aspira o sujeito que, assim, acredita ter contornado a castração18. Addicted ilustra magistralmente esse casamento do sujeito com a droga, que exclui o outro:
I'm my own man so when will you learn
That you got a man but I got to burn
Don't make no difference if I end up alone
I'd rather have myself a smoke my homegrown
It's got me addicted, does more than any dick
did.
Vemos que esse gozo cínico, reflexo do discurso capitalista atual, deixa seus “doentes” encarnados como restos, segregados de si mesmos. Eles são tratados da mesma maneira pelas políticas de saúde e de saúde mental que, ao oferecerem tratamentos centrados na droga e em sua abstinência, os nomeiam de “drogaditos”, excluindo do sujeito aquilo que nele faz sintoma.
A capacidade da cantora de se reiventar, no meio de toda a sua realidade, torna-se evidente e permite construir, além de mais um capítulo de sua biografia, uma saída para esse gozo solitário. A arte pode construir um laço social, entre a obra do artista e seu público, mediado pelo Outro, como diz Lacan: “No desatino de nosso gozo só há o Outro para situá-lo [...]”19.
A arte e seu poder de transformar o sintoma, através de bem-dizê-lo20, permite ao sujeito nomear-se “artista”, transmutar-se e inventar para si um nome, como Joyce
(Lacan, 2007). Antecipa-se assim à análise, pois, além de transmitir um saber avant la lettre21, pode ser uma ponte para a construção do sujeito na sua análise individual ou
mesmo em uma prática entre vários (o analista, o terapeuta ocupacional e as diversas oficinas de arte), segundo Di Ciaccia22.
A arte pode ser um norte para a busca de uma identidade além daquela postulada pela ciência em busca de um ideal esterilizante de normalidade, pois como canta Caetano Veloso: “de perto ninguém é normal”23.
Cabe agora aos analistas traduzir para a sua arte – a de psicanalisar – o que os artistas nos revelam, como Gullar24 em seu poema “Traduzir-se”:
Uma parte de mim é multidão;
outra parte estranheza e solidão.
Uma parte de mim é só vertigem;
outra parte, linguagem.
Traduzir uma parte na outra parte
que é uma questão de vida ou morte
Será arte?
1 Artigo apresentado no Encontro entre Cartéis da Escola Brasileira de
Psicanálise – Seção São Paulo, em 2010.
2 Freud, S. (1980[1906-1907]). “Delírios e Sonhos na Gradiva de
Jansen”. In Edição Standard Brasileira das obras psicológicas
completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago Editora, vol. IX,
pp.14-88.
3 Drummond de Andrade, C. (1969). Reunião. Rio de Janeiro: Editora José
Olympio.
4 Boyle, D. (1996). Trainspotting. [Filme]. Inglaterra. DVD, 16mm., 90
min. color. son.
5 Lacan, J. (2007[1975-1976]). O seminário, livro 23: o sinthoma. Rio
de Janeiro: Jorge Zahar Ed., p. 14. Lacan se utiliza dos escritos de
Joyce, especialmente da obra Ulisses, para descrever os efeitos da
linguagem ao discorrer sobre a lalação-lalíngua.
6 Silva, P. (2006). “O ataque ao corpo na body art”. Disponível em:
http://www.iar.unicamp.br/extensao/aperfartesvisuais/priscilla01.pdf.
7 Pessoa, F. (1980). O Eu Profundo e os Outros Eus. Rio de Janeiro:
Editora Nova Fronteira.
8 Freud, S. (1980[1929]). “O Mal-estar na civilização”. Op. cit., vol.
XXI, pp. 81-178.
9 Coelho dos Santos, T. (2001). Quem precisa de análise hoje? Rio de
Janeiro: Editora Bertrand.
10 Lacan, J. (2003[1974]). “Joyce, o Sintoma”. In Outros Escritos. Rio
de Janeiro: Jorge Zahar Ed., p. 562.
11 Miller, J.-A. (2000). “A teoria do parceiro”. In Os circuitos do
desejo na vida e na análise. Rio de Janeiro: Contra Capa Livraria.
12 Grammy Award é um prêmio da indústria musical internacional
presenteado anualmente pela National Academy of Recording Arts and
Sciences, nos Estados Unidos da América, honrando conquistas na arte
de gravação musical e provendo suporte à comunidade da indústria
musical. Disponível em: http://www.grammy.com/videos/50th-annualgrammy-
awards-record-of-the-year. Winehouse foi premiada com a
gravação e canção do ano, artista revelação, melhor álbum Pop e melhor
interpretação vocal feminina pop.
Opção Lacaniana Online O ardor e a dor de amor
8
13 Site official de Winehouse. Disponível em: www.amywinehouse.co.uk.
14 Várias reportagens sobre a cantora foram realizadas pelo Daily Mail
Online, na secção TV&Showbiz. Disponível em:
http://www.dailymail.co.uk/tvshowbiz/article-1249013/Amy-Winehouse-
Maybe-Im-Amys-problem-Mitch-Winehouse-comes-clean.html.
15 Lacan, J. (2003[1974]). Op. cit.
16 Nunes, E. (2008). “Adolescência e corpo: a prostituição e o abuso de
droga como sintoma”. Tese de doutorado, Faculdade de Medicina da
Universidade de São Paulo, São Paulo. Inédito.
17 Lacan, J. (1976). “Discours pendant la séance de clôture”. In
Journées des cartels del'École freudienne de Paris. Paris: Lettres de
l'Ecole freudienne (18), pp. 263-270.
18 Idem. (1992[1969-1970]). O seminário, livro 17: o avesso da
psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.
19 Idem. (2003[1974]). Op. cit.
20 Idem. (1977[1976]). "Ouverture de la Section clinique". In Ornicar?
(9). Paris, p. 13. E em: Lacan, J. (1977[1976]). "Seminário, L'insu
que sait de l'une-bévue s'aile à mourre". In Ornicar? (12/13). Paris.
21 Idem. (2007[1975-1976]). Op. cit.
22 Di Ciaccia, A. (1998). "De la fondation par Un à la pratique à
plusieurs". In Préliminaire (9/10), pp. 17-22.
23 Veloso, C. Trecho da música Vaca Profana: “Dona das divinas tetas /
Quero teu leite todo em minha alma / Nada de leite mau para os caretas
/Mas eu também sei ser careta/ De perto, ninguém é normal[...]”.
24 Gullar, F. (1981). Literatura Comentada. São Paulo: Editora Abril.



Muito interessante a leitura que a psicanálise faz da letra e da personalidade da cantora. Um artigo muito bom e sensato.

Malu Calado

domingo, 19 de junho de 2011

Judith Miller: 'Cada um de nós tem seu grão de loucura'



No mundo de hoje, em que a indústria farmacêutica vende antidepressivos como bombons e proliferam métodos prometendo “cura” rápida dos problemas, Judith Miller — filha de Jacques Lacan, psicanalista francês de maior influência do século XX — parte numa espécie de cruzada contra a ideia de que se pode (ou deve) apagar o “grão” de loucura que existe em cada ser humano para adaptá-lo às exigências da sociedade de consumo e produção.

Em entrevista ao GLOBO, Judith critica duramente as chamadas terapias cognitivo-comportamentais (TCC) que, segundo ela, buscam isso: “normalizar” e adaptar o comportamento das pessoas, prometendo a “felicidade”. O que bate de frente, explica, com um dos preceitos da psicanálise.

— Cada um de nós tem seu pequeno grão de loucura. Lacan anunciou no seu seminário: “todo mundo é louco”. É este grão de loucura que faz com que cada um de nós tenhamos um modo próprio de ser, de abordar as coisas, de reagir. A socialização não pode evitar isso — sustenta ela.
Judith, que não é psicanalista (é filósofa) e preside a Fundação do Campo Freudiano, desembarca no Brasil na próxima semana para participar do V Encontro Americano de Psicanálise de Orientação Lacaniana (V Enapol) e do XVII Encontro Internacional do Campo Freudiano, que acontece dias 11 e 12 sob o tema “A saúde para todos, não sem a loucura de cada um”. Dia 9 ela estará na abertura da mostra “Às vezes, a arte”, com obras de artistas do Campo Freudiano, na Galeria Antonio Berni, em Copacabana.

Antes, no dia 8, ela participará de uma palestra na livraria Travessa do Leblon sobre o lançamento do livro “Perspectivas dos ‘Escritos’ e dos ‘Outros escritos’ de Jacques Lacan” (Zahar Editora), ao lado da editora Cristina Zahar, do psicanalista argentino Leonardo Gorostiza e Angelina Harari, assessora da coleção Campo Freudiano no Brasil. O autor do livro é o psicanalista Jacques-Alain Miller, marido de Judith e designado pelo próprio Lacan como herdeiro intelectual de sua obra e ideias. Miller reúne no livro extratos de suas aulas na Universidade de Paris VIII, de 2008 a 2009, nas quais ele defende um retorno à obra de Lacan e à “psicanálise pura”.

Judith diz que a importância desta obra é que Miller transcreve as aulas sobre Lacan num momento em que “achou necessário relembrar aos analistas lacanianos que a psicanálise aplicada, do lado terapêutico, não representa toda a psicanálise”. Miller acusa os chamados terapeutas comportamentais de tratarem as pessoas como “uma força de trabalho”. E quem não se adapta à norma acaba reduzida à categoria de “perigosa para o capitalismo”.

— Uma pessoa não pode ser reduzida a um consumidor/produtor! — revolta-se.
A psicanálise, explica a filha de Lacan, trabalha no sentido oposto: do reconhecimento e aceitação da singularidade de cada pessoa.

— Lacan inventou um dispositivo em psicanálise chamado “la passe”, através do qual se verifica que, no final de uma análise, a pessoa analisada sabe discernir qual a sua diferença absoluta em relação às outras pessoas. Ou seja: ele vai saber viver com esta diferença em sociedade — diz Judith.

A filósofa ataca também as indústrias farmacêuticas e a Organização Mundial de Saúde (OMS), por associarem saúde mental à “felicidade de todos”. A “depressão” de hoje, diz, é sobretudo “uma questão comercial”:

— Querem vender antidepressivos que colocam as pessoas num estado eufórico, quando não há razão de estar eufórico.

Aos que acreditam em “terapias rápidas que visam erradicar logo os sintomas”, Judith Miller responde com uma frase do pai da psicanálise, Sigmund Freud: sintomas rechaçados pela janela voltam pela porta. A psicanálise, diz Judith, “não promete a felicidade, mas assegura um desejo de viver esclarecido”. Aos que apelam para antidepressivos, terapias curtas e comportamentais para lidar com o sofrimento, Judith alerta:

— Cedo ou tarde, as pessoas que sofrem acham a porta aberta para fazer psicanálise.
Judith também disse que levará para o Rio de Janeiro um documentário que a chocou profundamente. Em nome do combate à delinquência, o governo francês estaria usando métodos de terapia comportamental para testar níveis de violência nas crianças — uma experiência que ela classifica de “chocante, desumana”. O documentário mostra como crianças são submetidas a um jogo truncado, no qual não há chance de ganhar. É um teste para ver como reagem diante do fracasso.

— O que fazem com as crianças é um horror! Colocam-nas numa situação que enlouqueceria qualquer ser constituído, tudo isso em nome do combate à delinquência — conta Judith.


 Fonte:
http://oglobo.globo.com/blogs/prosa/posts/2011/06/04/judith-miller-cada-um-de-nos-tem-seu-grao-de-loucura-384367.asp